
Você finalmente encontra uma hora livre.
Poderia descansar. Caminhar. Ler. Fazer alguma coisa simplesmente porque gosta.
Mas então surgem os pensamentos:
“Eu deveria aproveitar para resolver aquilo.”
“As crianças precisam de mim.”
“Ainda tenho mensagens para responder.”
“Não posso parar agora.”
E aquele tempo que poderia ser seu rapidamente encontra outro destino.
Para muitas mulheres, o problema não é desconhecer a importância do autocuidado.
É conseguir cuidar de si sem sentir culpa por isso.
Quando estar disponível se torna parte de quem você é
Ao longo da vida, algumas mulheres aprendem a ocupar um lugar muito específico nas relações.
São aquelas que percebem o que precisa ser feito.
Antecipam necessidades.
Organizam.
Acolhem.
Lembram.
Resolvem.
No trabalho, podem ser profissionais extremamente responsáveis. Em casa, muitas vezes também administram uma parcela importante das necessidades familiares.
Essa dinâmica não existe apenas no campo das percepções individuais. Dados da Organização Internacional do Trabalho mostram que as mulheres continuam realizando a maior parcela do trabalho de cuidado não remunerado no mundo.
Quando cuidar dos outros se torna uma responsabilidade permanente, cuidar de si pode começar a parecer uma interrupção do dever.
A carga não é apenas aquilo que você faz
Existe também aquilo que você precisa lembrar que precisa ser feito.
Marcar consultas.
Acompanhar compromissos familiares.
Perceber que alguma coisa está acabando em casa.
Organizar aniversários.
Antecipar necessidades dos filhos ou dos pais.
Pensar naquilo que precisa acontecer amanhã enquanto ainda está resolvendo o que aconteceu hoje.
Essa dimensão invisível tem sido estudada como mental labor ou trabalho mental associado às tarefas domésticas e ao cuidado.
Uma revisão sistemática de 31 estudos encontrou que as mulheres assumiam uma parcela maior desse trabalho mental, especialmente nas decisões relacionadas aos filhos e à parentalidade. Os estudos também apontaram
associações com estresse, menor satisfação com a vida e com os relacionamentos e impactos profissionais.
Por isso, uma mulher pode estar sentada no sofá...
e ainda assim continuar trabalhando mentalmente para que a vida de todos funcione.
Por que descansar pode provocar culpa?
Imagine duas situações.
Na primeira, você cancela algo que queria fazer porque alguém da família precisa de você.
Na segunda, você mantém seu compromisso e diz que aquela pessoa precisará encontrar outra solução.
Qual delas provoca mais desconforto?
Para algumas mulheres, dizer “sim” para si mesmas implica dizer “não” — ou pelo menos “agora não” — para alguém.
E é justamente aí que a culpa pode aparecer.
Não necessariamente porque estejam fazendo algo errado, mas porque estão rompendo um padrão no qual estar disponível tornou-se sinônimo de ser uma boa mãe, companheira, filha, profissional ou líder.
Cuidar de si não deveria precisar ser conquistado
Existe outra armadilha bastante comum:
“Quando terminar tudo, eu descanso.”
O problema é que tudo raramente termina.
Sempre haverá outro e-mail.
Outra pendência.
Outra necessidade familiar.
Outro projeto.
Outra pessoa precisando de alguma coisa.
Se o descanso depender da ausência completa de responsabilidades, ele provavelmente será adiado indefinidamente.
E isso merece atenção porque a sobrecarga de cuidado não é irrelevante para a saúde emocional.
Uma revisão sistemática publicada no The Lancet Public Health, reunindo 19 estudos e mais de 70 mil participantes, encontrou desigualdades persistentes na distribuição do trabalho não remunerado e indicou associação negativa entre essa carga e a saúde mental das mulheres empregadas. Os autores também ressaltaram heterogeneidade e limitações metodológicas nos estudos disponíveis.
Outra revisão, baseada em estudos longitudinais com adultos em idade ativa, encontrou associação negativa entre cuidado informal não remunerado e saúde mental, com efeitos consistentemente desfavoráveis para mulheres nos estudos que analisaram os resultados por gênero.
Isso não significa que cuidar seja ruim.
Cuidar pode envolver amor, vínculo, propósito e reciprocidade.
A questão é outra:
quem cuida de todos também está conseguindo existir como alguém que possui necessidades próprias?
Talvez autocuidado não seja aquilo que parece nas redes sociais
Quando falamos em autocuidado, é fácil imaginar spa, viagens, massagens, exercícios ou momentos de lazer.
Tudo isso pode fazer parte.
Mas talvez exista uma dimensão muito mais profunda.
Autocuidado também pode ser:
perceber que você está cansada antes de chegar ao limite;
dizer “não” sem elaborar uma longa justificativa;
pedir ajuda;
dividir responsabilidades;
não responder imediatamente;
reconhecer que determinada expectativa é impossível de sustentar;
permitir que outra pessoa resolva um problema à maneira dela;
e admitir:
“Eu também preciso de cuidado.”
Dividir responsabilidades não é abandonar quem você ama
Existe uma diferença importante entre cuidar das pessoas e assumir
responsabilidade permanente pelo bem-estar de todas elas.
Quando essa fronteira desaparece, descansar pode gerar culpa porque parece que, ao cuidar de si, você está deixando alguém desassistido.
Mas talvez a pergunta precise mudar.
Em vez de:
“Como consigo fazer tudo e ainda encontrar algum tempo para mim?”
experimente perguntar:
“Por que tudo isso precisa depender de mim?”
Essa segunda pergunta desloca a questão.
Porque nem toda sobrecarga se resolve com agenda.
Algumas precisam de limites, conversas, redistribuição de responsabilidades e revisão das expectativas presentes nas relações.
E quando a culpa continua aparecendo?
Sentir culpa não significa necessariamente que você esteja fazendo algo errado.
Às vezes, ela aparece justamente quando começamos a agir de maneira diferente daquela à qual nós e as pessoas ao nosso redor estávamos acostumados.
A psicoterapia pode oferecer um espaço para compreender por que determinadas necessidades são tão difíceis de priorizar.
Por que dizer “não” provoca desconforto.
Por que pedir ajuda parece fraqueza.
Por que descansar precisa ser justificado.
E por que o próprio valor pode ter ficado tão associado a ser necessária para os outros.
Não se trata de aprender a colocar-se sempre em primeiro lugar.
Relacionamentos saudáveis também envolvem cuidado, responsabilidade, concessões e reciprocidade.
Trata-se de não ocupar sempre o último lugar.
Talvez cuidar de si também seja uma forma de responsabilidade
Você não precisa deixar de amar sua família.
Não precisa diminuir seu compromisso profissional.
Nem precisa transformar autocuidado em mais uma tarefa para executar perfeitamente.
Talvez o primeiro movimento seja muito menor.
Reconhecer que suas necessidades não se tornam menos importantes simplesmente porque outras pessoas também possuem necessidades.
E que reservar tempo, estabelecer limites, pedir ajuda ou simplesmente descansar não precisa significar:
“Estou escolhendo a mim em vez dos outros.”
Pode significar:
“Estou finalmente me incluindo entre as pessoas de quem também preciso cuidar.”
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