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Liderança e solidão: por que quem decide também precisa ser escutado

Cargos de responsabilidade podem limitar espaços de troca autêntica. Veja o valor de ter um ambiente confidencial de reflexão.

Liderança e solidão: por que quem decide também precisa ser escutado

Quanto mais você cresce profissionalmente, mais pessoas passam a procurar você para encontrar respostas.

A equipe traz problemas. Os pares esperam posicionamentos. Os clientes querem segurança. A direção cobra resultados. Em casa, outras responsabilidades continuam existindo.

Mas existe uma pergunta que raramente é feita a quem ocupa posições de liderança:

Quem escuta você quando é você quem precisa decidir?

A solidão na liderança nem sempre significa falta de pessoas por perto. Muitas vezes, significa não encontrar relações nas quais seja possível falar sem precisar sustentar o papel de quem sabe, resolve e conduz.

Quanto mais responsabilidade, menos algumas coisas podem ser compartilhadas

Há decisões que um líder simplesmente não pode discutir com qualquer pessoa.

Uma possível reestruturação.

Dúvidas sobre alguém da própria equipe.

Conflitos entre sócios.

Incertezas sobre o futuro da empresa.

Medo de não alcançar determinado resultado.

Ou até uma pergunta difícil de admitir:

“Será que ainda quero continuar vivendo dessa maneira?”

Com subordinados, existe a responsabilidade de não transferir insegurança indiscriminadamente.

Com pares, podem existir interesses e disputas.

Com superiores, pode haver receio de que uma dúvida seja interpretada como fragilidade.

Com familiares e amigos, nem sempre existe compreensão da complexidade envolvida.

Assim, uma pessoa pode passar o dia inteiro conversando e terminar a semana sentindo que não teve uma única conversa na qual realmente pudesse falar de si.

Solidão na liderança não é apenas uma impressão

Pesquisas sobre liderança vêm mostrando que a experiência de solidão no trabalho merece atenção.

Um estudo publicado no Journal of Applied Psychology, por exemplo, investigou especificamente a relação entre ocupar posições de liderança e solidão, mostrando que determinadas exigências associadas ao papel podem contribuir para essa experiência.

Isso não significa que todo executivo ou líder seja solitário.

Significa reconhecer que poder, responsabilidade e conexão humana não caminham automaticamente juntos.

Em alguns casos, quanto maior a posição hierárquica, mais cuidadosa precisa ser a escolha de com quem compartilhar determinadas dúvidas.

O problema de não ter onde colocar a dúvida

Uma liderança saudável não exige certeza permanente.

Decisões complexas envolvem ambiguidade. Estratégias podem falhar. Pessoas são imprevisíveis. E nem todos os problemas possuem uma resposta claramente correta.

Quando o líder acredita que precisa demonstrar segurança o tempo todo, pode começar a esconder não apenas suas dúvidas dos outros, mas também de si mesmo.

É aí que frases aparentemente positivas podem se tornar armadilhas:

“Eu dou conta.”

“Depois penso nisso.”

“Agora preciso resolver.”

“Não posso me deixar abalar.”

O problema não está em ser resiliente ou assumir responsabilidades.

Está em transformar força em impossibilidade de reconhecer limites, conflitos e necessidades.

Ser escutado não significa receber conselhos

Existe uma diferença importante entre conversar com alguém e encontrar um espaço genuíno de escuta.

Muitas conversas profissionais estão orientadas para soluções:

Qual é o problema? O que vamos fazer? Quem será responsável? Qual é o prazo?

Essa lógica é necessária para administrar organizações.

Mas nem todas as questões humanas podem ser resolvidas dessa maneira.

Às vezes, antes de decidir, é necessário compreender por que aquela decisão está sendo tão difícil.

Antes de resolver um conflito, perceber o que aquela relação desperta em você.

Antes de aceitar outra responsabilidade, perguntar por que dizer “não” parece

tão difícil.

E antes de definir o próximo objetivo, compreender se ele ainda corresponde à vida que você deseja construir.

O valor de um espaço confidencial

É nesse ponto que a psicoterapia pode assumir um papel particular para quem lidera.

Não como consultoria empresarial.

Não como treinamento de liderança.

E nem como um lugar onde alguém simplesmente dirá o que você deve fazer.

A psicoterapia oferece um espaço profissional protegido pela confidencialidade, dentro dos limites éticos e legais, no qual questões pessoais, relacionais e profissionais podem ser examinadas com maior liberdade.

Ali, o executivo não precisa convencer investidores.

A executiva não precisa tranquilizar a equipe.

O empresário não precisa demonstrar que sabe exatamente qual será o próximo passo.

Pode existir dúvida sem que ela precise ser imediatamente transformada em decisão.

Talvez algumas perguntas estejam esperando espaço

Como estão minhas relações fora do trabalho?

Quanto da minha identidade depende da posição que ocupo?

Por que tenho tanta dificuldade em delegar?

O que estou tentando provar — e para quem?

Minhas escolhas ainda refletem meus valores?

Consigo demonstrar vulnerabilidade sem sentir que estou perdendo autoridade?

E, talvez, uma das perguntas mais importantes:

Quem sou eu quando não preciso liderar ninguém?

Essas perguntas não diminuem a capacidade de liderança.

Podem ampliar a consciência sobre a pessoa que está exercendo essa liderança.

Liderar também exige reconhecer a própria humanidade

A Organização Mundial da Saúde destaca que condições relacionadas ao trabalho, como cargas excessivas, baixo controle, cultura organizacional negativa e apoio limitado, podem representar riscos à saúde mental. Lideranças não estão fora dessa realidade simplesmente porque ocupam posições de maior autoridade.

Existe uma diferença entre estar sozinho para tomar uma decisão e sentir que precisa enfrentar tudo sozinho.

A primeira experiência faz parte de muitas posições de responsabilidade.

A segunda não precisa se transformar em condição permanente.

Talvez maturidade na liderança não seja chegar ao ponto em que você não precisa mais de ninguém.

Talvez seja exatamente o contrário:

ter segurança suficiente para reconhecer que quem sustenta tantas decisões também precisa encontrar um lugar onde possa ser escutado.

Fontes

World Health Organization (WHO) — Mental Health at Work. Informações sobre fatores psicossociais e saúde mental relacionados ao trabalho.

Journal of Applied Psychology — “Does Leadership Make You Lonely?” Pesquisa sobre liderança, demandas relacionadas ao papel e experiência de solidão.

Conselho Federal de Psicologia (CFP). Referências éticas relacionadas ao exercício profissional da Psicologia, sigilo e confidencialidade.

Conteúdo educativo e informativo. Não substitui avaliação psicológica ou médica individual.

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Dr. Edgard Gonçalves · CRP 06/65814

Psicólogo clínico com mais de 35 anos de experiência. Atendimento presencial na Avenida Paulista, em São Paulo, e online em língua portuguesa.