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Mulheres executivas e saúde mental: quando cuidar de si vira prioridade

Carreira, liderança, família e autocobrança podem se somar. Entenda por que a saúde emocional precisa ter espaço na agenda.

Mulheres executivas e saúde mental: quando cuidar de si vira prioridade

A reunião importante entra na agenda.

A apresentação para o conselho também.

O compromisso dos filhos, a consulta dos pais, o jantar de família, o prazo do cliente, a viagem de trabalho.

Tudo encontra algum espaço.

Mas existe um compromisso que muitas mulheres continuam adiando:

cuidar de si mesmas.

Não necessariamente porque não consideram isso importante. Mas porque, entre aquilo que precisa ser feito e aquilo que pode esperar, elas próprias frequentemente acabam ficando para depois.

Quando competência se transforma em disponibilidade permanente

Chegar a uma posição de liderança geralmente exigiu anos de dedicação.

Aprender a decidir. Resolver problemas. Administrar conflitos. Antecipar riscos. Entregar resultados.

Para muitas executivas, porém, as responsabilidades profissionais coexistem com demandas familiares, relacionais e domésticas.

Essa sobreposição não é apenas uma percepção individual. Dados internacionais continuam mostrando uma distribuição desigual do trabalho de cuidado: estimativas recentes da Organização Internacional do Trabalho indicam que as mulheres realizam mais de três quartos do trabalho de cuidado não remunerado no mundo.

O problema começa quando dar conta de tudo deixa de ser uma circunstância e se transforma em expectativa sobre si mesma.

“Depois eu cuido de mim”

Talvez você reconheça algumas dessas situações:

termina o dia de trabalho e começa outra jornada em casa; sente culpa quando descansa enquanto ainda existem coisas a fazer; resolve problemas de muitas pessoas, mas raramente pergunta do que você própria precisa; mantém-se disponível mesmo quando deveria estar descansando; acredita que pedir ajuda significa não estar dando conta; percebe que sua agenda possui espaço para quase todos — menos para você.

Nenhuma dessas situações, isoladamente, significa que exista um transtorno psicológico.

Mas quando esse funcionamento se torna permanente, vale observar o custo.

Uma revisão sistemática publicada em 2026, reunindo 21 estudos sobre conflito trabalho- família e saúde de mulheres trabalhadoras, encontrou associação entre essa “dupla presença”, condições do trabalho remunerado, volume de responsabilidades familiares e problemas de saúde física e mental.

Existe uma autocobrança que não aparece na agenda

Nem toda sobrecarga vem de fora.

Existe também aquela que se instala internamente.

Preciso ser uma excelente profissional.

Preciso estar presente para minha família.

Preciso cuidar das pessoas que dependem de mim.

Não posso demonstrar que estou cansada.

Preciso continuar crescendo.

Cada uma dessas aspirações pode fazer sentido separadamente.

O problema está no “preciso ser tudo, para todos, ao mesmo tempo”.

Nesse ponto, cuidar de si pode começar a parecer egoísmo, perda de tempo ou até sinal de fraqueza.

Não é.

Saúde mental não deveria entrar na agenda apenas quando algo dá errado

Existe uma ideia perigosa de que procurar ajuda psicológica só faz sentido quando a pessoa chegou ao limite.

Não precisa ser assim.

Cuidado emocional também envolve perceber padrões antes que eles se intensifiquem.

Reconhecer limites.

Entender por que você se cobra tanto.

Observar como está se relacionando com trabalho, família e consigo mesma.

Perceber quais responsabilidades realmente são suas — e quais você assumiu porque se acostumou a ser aquela que resolve.

Você não precisa abandonar a ambição para cuidar de si

Esse talvez seja um dos conflitos mais importantes para mulheres que construíram carreiras exigentes.

Como desacelerar sem sentir que estou desistindo?

Como estabelecer limites sem comprometer minha carreira?

Como cuidar da família sem desaparecer dentro das necessidades dos outros?

Como continuar crescendo profissionalmente sem transformar toda a vida em performance?

A resposta provavelmente não está em escolher entre carreira ou saúde mental.

Está em construir uma forma de viver na qual ambas possam existir.

E isso também exige olhar para as condições concretas de trabalho e de cuidado. A OIT destaca que a distribuição desigual das responsabilidades de cuidado continua limitando oportunidades profissionais e econômicas das mulheres em escala global.

Portanto, não seria adequado transformar um problema que também possui dimensões familiares, organizacionais e sociais em uma simples questão de “administrar melhor o tempo”.

Quando a psicoterapia pode entrar nessa conversa

A psicoterapia pode oferecer um espaço no qual você não precisa ser a executiva, a líder, a empresária, a mãe, a companheira ou aquela que sempre encontra uma solução.

Pode ser um lugar para investigar perguntas que dificilmente encontram espaço entre um compromisso e outro:

O que eu preciso?

Quais limites tenho dificuldade de estabelecer?

Por que descansar desperta culpa?

Quanto do meu valor pessoal está ligado ao que consigo realizar?

A vida que estou construindo é sustentável para mim?

Não se trata necessariamente de fazer menos.

Trata-se de compreender como você está vivendo enquanto faz tudo aquilo que considera importante.

Talvez cuidar de si precise deixar de ser o último item

Sua carreira importa.

Seus relacionamentos importam.

Sua família pode importar profundamente.

Seus projetos e ambições também.

Mas existe alguém que precisa continuar existindo para viver tudo isso:

você.

Cuidar da saúde emocional não significa abandonar responsabilidades nem colocar-se permanentemente acima das outras pessoas.

Significa deixar de acreditar que seu bem-estar só merece atenção depois que todas as demais demandas estiverem resolvidas.

Porque esse dia talvez nunca chegue.

Às vezes, a mudança começa quando cuidar de si deixa de ser aquilo que você fará quando tiver tempo...

e passa a fazer parte da vida que você decidiu construir.

Fontes consultadas

A Organização Internacional do Trabalho — impacto das responsabilidades de cuidado sobre a participação das mulheres no trabalho informa que, em 2023, 708 milhões de mulheres estavam fora da força de trabalho mundial devido a responsabilidades de cuidado, evidenciando a dimensão estrutural da questão.

A OIT — Care Work and Care Jobs for the Future of Decent Work apresenta dados de mais de 90 países sobre desigualdades relacionadas ao trabalho de cuidado. Já a revisão sistemática sobre conflito trabalho-família e saúde de mulheres trabalhadoras — PubMed reúne evidências recentes sobre as repercussões dessa dupla presença.

Conteúdo educativo e informativo. Não substitui avaliação psicológica ou médica individual.

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Dr. Edgard Gonçalves · CRP 06/65814

Psicólogo clínico com mais de 35 anos de experiência. Atendimento presencial na Avenida Paulista, em São Paulo, e online em língua portuguesa.